Crepúsculo
Saga Luz e escuridão nº1
Primeiro Capítulo
Primeira Vista
«A minha mãe levou-me ao aeroporto, de automóvel, com os vidros abertos. Estava uma temperatura de trinta e cinco graus em Phoenix e o céu tingido de um azul perfeito e sem nuvens. Usava a minha camisa preferida — sem mangas, de renda branca com ilhós; vestira-a como um gesto de despedida. A peça de vestuário que trazia na mão era um anoraque.
Na Península Olímpica do noroeste do estado de Washington, existe uma pequena localidade chamada Forks que se encontra imersa num quase permanente manto de nuvens. Nesta insignificante localidade chove mais do que em qualquer outro lugar nos Estados Unidos da América. Foi desta localidade e da sua sombra carregada e omnipresente que a minha mãe fugiu, levando-me consigo, quando eu tinha apenas alguns meses de idade. Fora nesta cidade que eu fora obrigada a passar um mês todos os verões até completar catorze anos. Foi no ano em que tal aconteceu que eu finalmente finquei pé; em vez disso, nos últimos três verões, o meu pai, Charlie, passou duas semanas de férias comigo na Califórnia.
Era em Forks que eu agora me exilava — um acto que cometi com grande horror. Eu detestava Forks.
Adorava Phoenix. Adorava o sol e o calor escaldante. Adorava a cidade vigorosa e desordenada.
— Bella — disse-me a minha mãe — pela derradeira vez, após o ter repetido outras mil — antes de eu entrar no avião. — Não tens de fazer isto.
A minha mãe parece-se comigo, excluindo o facto de ter cabelos curtos e rugas de expressão. Senti um acesso de pânico ao fitar os seus olhos arregalados, quase infantis. Como podia deixar a minha mãe dedicada, errática e estouvada a cuidar de si mesma? É claro que agora tinha Phill, pelo que as contas seriam provavelmente pagas, haveria comida no frigorífico, gasolina no carro dela e alguém a quem ela poderia telefonar quando se perdesse, mas mesmo assim…
— Eu quero ir — menti. Nunca soube mentir, mas, ultimamente, repetia esta mentira com tanta frequência que já quase parecia convincente.
— Manda cumprimentos meus ao Charlie — afirmou ela, resignada.
— Fá-lo-ei.
— Vemo-nos em breve — insistiu ela. — Podes regressar a casa quando desejares — eu voltarei assim que precisares de mim.
No entanto, eu conseguia ver o sacrifício que os seus olhos reflectiam por trás da promessa.
— Não te preocupes comigo — exortei. — Será óptimo. Eu gosto muito de ti, mãe.
Ela abraçou-me firmemente durante um instante e, em seguida, eu embarquei no avião e ela partiu.
A viagem aérea de Phoenix a Seattle tem uma duração de quatro horas, seguida de mais uma hora num pequeno avião até Port Angeles e outra de automóvel até Forks. Viajar de avião não me incomoda; estava, porém, um pouco preocupada com a viagem de uma hora de carro na companhia de Charlie.
Na verdade, Charlie encarara realmente toda aquela situação com bastante simpatia. Parecia sinceramente satisfeito com o facto de, pela primeira vez, eu ir viver com ele com a intenção de prolongar a minha estada por algum tempo. Já me matriculara no liceu e ia ajudar-me na compra de um carro.
A convivência com Charlie prometia, porém, ser marcada por alguma falta de à vontade. Nenhum de nós era aquilo que qualquer pessoa designaria por verboso e, de qualquer forma, eu não sabia o que havia a dizer. Eu tinha consciência de que ele estava mais do que apenas um pouco confundido com a minha decisão — tal como a minha mãe fizera antes de mim, eu não fizera questão de esconder a minha antipatia por Forks.
Quando aterrei em Port Angeles, estava a chover. Não considerei este facto como um presságio — apenas como algo inevitável. Já me despedira do sol.
Charlie aguardava-me no carro de rádio-patrulha. Também isto não me surpreendeu. Charlie é o Chefe da Polícia Swan das boas gentes de Forks. A minha principal motivação para a compra de um carro, apesar da escassez dos meus fundos, era o facto de recusar percorrer a cidade numa viatura com luzes azuis e vermelhas no tejadilho. Nada abranda o fluxo do tráfego como um agente da polícia.
Charlie deu-me um desajeitado abraço com apenas um dos braços depois de eu ter desembarcado do avião com passos vacilantes.
— É bom ver-te, Bells — exclamou ele, sorrindo, ao agarrar-me automaticamente e devolver-me o equilíbrio. — Não mudaste muito. Como está a Renée?
— A mãe está óptima. Também é bom ver-te, pai. — Não me era permitido chamar-lhe «Charlie» abertamente.
Tinha apenas algumas malas. A maioria das roupas que eu usava no Arizona eram demasiado permeáveis para poder vesti-las em Washington. Eu e a minha mãe havíamos reunido os nossos recursos para reforçar o meu guarda-roupa de Inverno, mas este continuava a ser escasso. Tudo coube perfeitamente no porta-bagagem do carro de rádio-patrulha.
— Encontrei um bom carro para ti, a um preço bastante reduzido — comunicou-me ele depois de entrarmos no carro e de termos colocado os cintos de segurança.
— Que género de carro? — A forma como ele dissera «um bom carro para ti », em vez de apenas «um bom carro», suscitou em mim algumas suspeitas.
— Bem, na verdade, é uma pick-up, uma Chevrolet.
— Onde a encontraste?
— Recordas-te do Billy Black, que habita lá em baixo, em La Push? — La Push é a minúscula Reserva Índia junto à costa.
— Não.
— Ele costumava ir pescar connosco durante o Verão — relembrou-me Charlie.
Isto explica por que motivo não me recordava dele. Sou bastante bem sucedida nas minhas tentativas de apagar factos dolorosos e desnecessários da minha memória.
— Ele encontra-se agora numa cadeira de rodas — prosseguiu Charlie ao verificar que eu não retorquia — pelo que não pode conduzir e propôs vender-me a sua pick-up a um preço reduzido.
— De que ano é?
Apercebi-me, pela mudança da expressão no seu rosto, que esta era a questão que ele esperava que eu não colocasse.
— Bem, o Billy já procedeu a muitos melhoramentos no motor — na verdade, tem apenas alguns anos.
Eu esperava que ele não me tivesse em tão pouca consideração a ponto de acreditar que eu desistiria assim tão facilmente.
— Quando é que ele a comprou?
— Comprou-a em 1984, creio eu.
— E era nova quando a comprou?
— Bem, não. Penso que era nova no início da década de 1960 — ou, no máximo, no final da de 1950 — reconheceu timidamente.
— Ch... — pai, eu não percebo realmente nada de carros. Não seria capaz de a arranjar se surgisse algum problema e eu não pudesse pagar a um mecânico…
— A sério, Bella, a coisa funciona às mil maravilhas. Já não se fabricam pick-ups como aquela.
— A coisa — pensei para comigo… — tinha potencial, — como alcunha, no mínimo.
— A que te referes quando falas em preço reduzido? — No fim de contas, era sob este aspecto que não podia comprometer-me.
— Bem, querida, eu, de certa forma, já ta comprei. Como um presente de regresso a casa. — Charlie olhava-me pelo canto do olho com um ar esperançoso.
Ena. De borla.
— Não precisavas de fazer isso, pai. Eu própria ia comprar um carro.
— Não me importo. Quero que sejas feliz aqui. — Olhava em frente, para a estrada, quando proferiu estas palavras. Charlie não se sentia à vontade ao exprimir verbalmente as suas emoções. Eu herdei esta característica dele. Logo, olhava em frente quando repliquei:
— É muito simpático da tua parte, pai. Obrigada. Agradeço-te muito. — Não havia necessidade de acrescentar que o facto de eu ser feliz em Forks constituía uma impossibilidade. Ele não precisava de compartilhar do meu sofrimento. Além disso, nunca tinha olhado uma pick-up gratuita nos olhos — ou melhor, no motor.
— Ora, não tens de quê — balbuciou, embaraçado com o meu agradecimento.
Trocámos mais alguns comentários a respeito do tempo, que estava húmido, e a conversa resumiu-se praticamente a isso. Lançávamos, em silêncio, o olhar fixo através das janelas.
A paisagem era, evidentemente, bela; eu não podia negar esse facto. Tudo era verde: as árvores, os seus troncos revestidos de musgo, os seus ramos suspensos com uma abóbada formada por este último, o solo coberto por fetos. O próprio ar, filtrado pelas folhas, assumia uma tonalidade verde.
Era demasiado verde — um planeta extraterrestre.
Finalmente, chegámos a casa de Charlie. Vivia ainda na pequena casa com dois quartos que comprara em conjunto com a minha mãe nos seus primeiros tempos de casados. Estes foram os únicos tempos que o casamento de ambos teve — os primeiros. Ali, estacionado na rua, em frente à casa que nunca mudava, encontrava-se a minha nova — bem, nova para mim — pick-up. Caracterizava-se por um tom vermelho desbotado, grandes pára-choques arredondados e uma cabina abaulada. Para minha intensa surpresa, adorei-a. Não sabia se funcionaria, mas conseguia imaginar-me dentro dela. Além disso, era um daqueles veículos de ferro sólido nos quais nunca se consegue fazer uma mossa — do género daqueles que se vê no local onde ocorreu um acidente, sem um único risco na pintura, rodeado pelos destroços do carro estrangeiro que destruiu.
— Ena, pai, adoro-a! Obrigada! — A partir deste momento, o meu horrível dia seguinte já se tornava menos pavoroso. Não seria confrontada com a escolha entre percorrer três quilómetros a pé, à chuva, até à escola ou aceitar uma boleia no carro de rádio-patrulha do Chefe.
— Ainda bem que gostas — afirmou Charlie de modo rude, novamente embaraçado.
De uma só vez, conseguimos levar todos os meus pertences para o andar superior. Fiquei no quarto virado para oeste, que tinha vista para o pátio em frente à casa. O quarto não me era estranho; pertencera-me desde que eu nascera. O piso em madeira, as paredes pintadas de azul-claro, o tecto em ogiva, as cortinas de renda amarelada em torno da janela — todos estes aspectos faziam parte da minha infância. As únicas alterações a que Charlie alguma vez procedera foram a substituição do berço por uma cama e a colocação de uma secretária à medida que fui crescendo. A secretária suportava agora um computador em segunda mão, com o cabo telefónico para ligar ao modem agrafado ao longo do piso até à tomada telefónica mais próxima. Esta fora uma condição que a minha mãe impusera, de modo a que pudéssemos permanecer facilmente em contacto uma com a outra. A cadeira de balouço dos meus tempos de bebé ainda se encontrava ao canto.
Havia apenas um pequeno quarto de banho ao cimo das escadas, que eu teria de partilhar com Charlie. Eu tentava não me deter muito sobre este facto.
Uma das melhores características de Charlie é o facto de não me controlar. Deixou-me sozinha para desfazer as malas e me instalar, um feito que, para a minha mãe, seria absolutamente impossível realizar. Era agradável estar só, não ter de sorrir e parecer satisfeita; era um alívio olhar, de forma deprimida, a chuva copiosa através da janela e deixar escapar apenas algumas lágrimas. Não estava com disposição para desatar numa autêntica choradeira. Reservaria o desabafo para a hora de deitar, ao pensar no dia seguinte.
O Liceu de Forks contava com um total assustador de trezentos e cinquenta e sete — agora trezentos e cinquenta e oito — alunos; na cidade de onde provinha, só na escola do terceiro ciclo do ensino básico havia mais de setecentas pessoas. Em Forks, todos os miúdos haviam crescido juntos — os seus avós haviam aprendido a andar juntos. Eu seria a nova aluna da cidade grande, uma curiosidade, uma aberração.
Se eu aparentasse ser uma rapariga de Phoenix, talvez pudesse tirar partido desta situação. Em termos físicos, porém, eu nunca me integraria em parte nenhuma. Devia ter a pele bronzeada, ser loura e dada à actividade desportiva — talvez uma jogadora de voleibol ou chefe de claque — tudo aquilo que está inerente à vida no vale do sol.
Em vez disso, a minha pele era ebúrnea, não tendo sequer a desculpa dos olhos azuis ou dos cabelos ruivos, apesar de o sol brilhar de forma constante. Sempre tivera um corpo esbelto, mas, de certo modo, flácido, o que não correspondia, obviamente, ao corpo de uma atleta; não possuía a coordenação entre as mãos e os olhos que era necessária para praticar desporto sem ser sujeita a uma humilhação — e lesionar-me a mim própria, bem como a quem quer que estivesse demasiado perto de mim.
Quando terminei de colocar as minhas roupas na velha cómoda de pinho, peguei na bolsa que continha os meus produtos de higiene pessoal e dirigi-me ao quarto de banho comum para me lavar depois de um dia de viagem. Olhei o meu rosto ao espelho, enquanto escovava o meu cabelo húmido e emaranhado. Talvez se devesse à luz, mas eu já parecia mais lívida, pouco saudável. A minha pele podia ser bonita — era muito clara, tinha um aspecto quase translúcido —, mas tudo dependia da cor. Ali, era completamente descorada.
Encarando o meu pálido reflexo no espelho, fui obrigada a admitir que estava a mentir a mim mesma. Não era apenas em termos físicos que eu jamais me integraria. Se eu não conseguia encontrar o meu lugar numa escola com três mil pessoas, quais seriam as minhas hipóteses ali?
Não me relacionava de forma satisfatória com as pessoas da minha idade. Na verdade, talvez não me relacionasse de forma satisfatória com as pessoas — ponto final. Nem com a minha mãe, a pessoa a quem eu era mais chegada do que a qualquer outra no planeta, conseguia manter uma relação harmoniosa, nunca estando propriamente em sintonia. Por vezes, interrogava-me se, através dos meus olhos, via as mesmas coisas que o resto do mundo via através dos seus. Talvez o meu cérebro tivesse um problema técnico.
A causa, porém, não era relevante. O único aspecto relevante era o efeito. O dia seguinte seria apenas o princípio.
Não dormi bem nessa noite, mesmo depois de ter acabado de chorar. O constante som provocado pela chuva e pelo vento ao fustigarem o telhado recusava-se a enfraquecer e a ser reduzido a ruído de fundo. Puxei a velha e desbotada colcha para tapar a cabeça e, mais tarde, recorri também à almofada, mas só consegui adormecer depois da meia-noite, quando a chuva finalmente amainou e se transformou em mais silenciosos chuviscos.
Através da minha janela, de manhã, conseguia ver apenas um denso nevoeiro e sentia a claustrofobia a assaltar-me. Ali, nunca se conseguia ver o céu; era como uma gaiola.
O pequeno-almoço tomado com Charlie foi uma ocorrência tranquila. Desejou-me boa sorte para o primeiro dia de escola. Eu agradeci-lhe, sabendo que as suas esperanças eram vãs. A boa sorte tendia a evitar-me. Charlie foi o primeiro a sair, dirigindo-se para a esquadra da polícia, que era a sua esposa e a sua família. Depois de ele ter saído, eu sentei-me à velha mesa quadrada de madeira de carvalho numa das três cadeiras diferentes umas das outras e examinei a sua pequena cozinha, com as respectivas paredes escuras, armários de um tom amarelo vivo e piso em linóleo branco. Nada sofrera alterações. A minha mãe pintara os armários, há dezoito anos, numa tentativa de iluminar um pouco a casa como se do brilho do sol se tratasse. Por cima da pequena lareira da sala estar, que tinha as dimensões de um lenço, encontrava-se uma sucessão de retratos. Em primeiro lugar, um retrato do casamento de Charlie e da minha mãe em Las Vegas; depois, um no qual figurávamos nós três, no hospital, depois de eu ter nascido, que fora tirado por uma prestável enfermeira, seguido pela procissão dos meus retratos escolares, até ao do ano passado. Era embaraçoso olhá-los — teria de ver o que podia fazer para convencer Charlie a colocá-los noutro lugar, pelo menos, enquanto eu ali morasse.
Estando naquela casa, era impossível não perceber que Charlie jamais esquecera a minha mãe, o que me causou um certo incómodo.
Não queria chegar demasiado cedo à escola, mas já não conseguia ficar em casa. Vesti o casaco — que, ao toque, parecia tratar-se de um fato de protecção contra riscos biológicos — e saí, expondo-me à chuva.
Continuava apenas a chuviscar, o que não foi suficiente para ficar imediatamente encharcada, enquanto tentava alcançar a chave de casa, que estava sempre escondida debaixo do beiral, junto à porta, que tranquei. O chapinhar das minhas novas botas à prova de água era enervante. Senti a falta do habitual ruído do cascalho enquanto caminhava. Não podia deter-me e admirar novamente a minha pick-up conforme pretendia; tinha pressa de me abrigar da humidade brumosa que rodopiava em torno da minha cabeça e aderia ao meu cabelo debaixo do capuz.
O interior da pick-up estava seco e agradável. Era evidente que Billy ou Charlie tinham feito uma limpeza no mesmo, mas, dos bancos com estofos castanhos-amarelados, emanava ainda um odor a tabaco, gasolina e hortelã-pimenta. O motor pegou rapidamente, para meu alívio, mas de forma sonora, roncando ao voltar à vida e, em seguida, começando a falhar ao atingir o volume máximo. Bem, uma pick-up tão velha tinha de ter, obrigatoriamente, algum defeito. O antigo rádio funcionava, um aspecto positivo com que eu não contava.
Não foi difícil chegar até à escola, apesar de nunca ali ter estado antes. Situava-se, tal como a maior parte dos outros locais, logo à saída da estrada nacional. À primeira vista, não parecia tratar-se de uma escola; apenas a tabuleta, que indicava ser o Liceu de Forks, me fez parar. Aparentava ser um aglomerado de casas similares, construídas com tijolos de cor castanha-avermelhada. Havia tantas árvores e arbustos que, a princípio, não consegui aperceber-me da sua dimensão. O que era feito da sensação de instituição? — interroguei-me nostalgicamente. O que era feito das vedações de rede metálica, dos detectores de metais?
Estacionei em frente ao primeiro edifício, por cima de cuja porta se encontrava um letreiro onde podia ler-se «CONSELHO EXECUTIVO». Nenhum outro carro estava ali parado, pelo que eu tinha a certeza de que o estacionamento era proibido, mas resolvi ir pedir indicações no interior em vez de andar às voltas, debaixo de chuva, como uma idiota. Saí de má vontade da aconchegante cabina da pick-up e percorri um pequeno caminho empedrado ladeado por sebes escuras. Respirei fundo antes de abrir a porta.
O interior estava intensamente iluminado e mais quente do que eu esperava. O gabinete era pequeno: uma pequena zona de espera com cadeiras articuladas almofadadas; um tapete de compra com manchas cor-de-laranja; avisos e galardões a preencherem desordenadamente as paredes; um grande relógio a marcar o tempo de forma sonora. Cresciam plantas por toda a parte, dentro de grandes vasos de plástico, como se o verde não predominasse já o bastante no exterior. A sala estava dividida ao meio por um longo balcão, que estava atulhado de cestos de arame repletos de papéis e com folhetos intensamente coloridos colados na sua parte frontal. Por trás do balcão, havia três secretárias, uma das quais estava ocupada por uma corpulenta mulher de cabelos ruivos que usava óculos. Tinha vestida uma camisola roxa de mangas curtas, o que me fez ter imediatamente a sensação de ter exagerado nas roupas que escolhera.
A mulher de cabelos ruivos ergueu o olhar.
— Posso ajudá-la?
— Chamo-me Isabella Swan — informei-a e vi a imediata consciência iluminar-lhe os olhos. Eu era esperada e, sem dúvida, tema de mexericos. Filha da volúvel ex-mulher do Chefe, finalmente regressada a casa.
— É claro — retorquiu ela. Revistou uma pilha de documentos precariamente amontoados na sua secretária até encontrar aqueles que procurava. — Tenho o teu horário aqui mesmo, assim como um mapa da escola. — Levou várias folhas até ao balcão para mas mostrar.
Enumerou-me as aulas a que eu assistiria, salientando, no mapa, o melhor itinerário para chegar a cada sala, e deu-me um pequeno pedaço de papel, o qual teria de ser assinado por cada professor e devolvido no final do dia. Ela sorriu-me e, tal como Charlie, afirmou esperar que eu gostasse de estar em Forks. Eu retribuí o sorriso da forma mais convincente que consegui.
Quando voltei para a minha pick-up, começavam a chegar outros alunos. Contornei a escola, seguindo a fila de trânsito. Fiquei contente ao verificar que a maioria dos carros era mais velha, tal como o meu, e nada tinha de demasiado ostentosa. Na terra de onde provinha, morara num dos poucos bairros para famílias de rendimentos mais baixos que pertenciam ao distrito de Paradise Valley. Era algo comum ver um Mercedes ou um Porsche novo no parque de estacionamento para os estudantes. Aqui, o automóvel mais vistoso era um Volvo reluzente e este sobressaía. Mesmo assim, desliguei o motor assim que ocupei um lugar, para que o ruído atroador não chamasse a atenção sobre mim.
Consultei o mapa dentro da pick-up, tentando fixá-lo imediatamente na memória; com alguma sorte, não teria de andar pela escola com ele diante do meu nariz durante todo o dia. Guardei tudo dentro da minha mala, coloquei a alça ao ombro e inspirei profundamente. Eu consigo fazer isto, menti a mim mesma sem grande convicção. Ninguém há-de morder-me. Por fim, expirei e saí da pick-up.
Mantive o meu rosto escondido pelo capuz ao dirigir-me ao passeio, apinhado de adolescentes. O meu simples casaco preto não dava nas vistas, observei com alívio.
Assim que contornei a cantina, foi fácil localizar o edifício três. Na esquina oriental, estava pintado um «3» grande e preto num quadrado branco. Senti a minha respiração a ficar gradualmente mais ofegante à medida que me aproximava da porta. Tentei suster a respiração ao seguir duas gabardinas unissexo que se dirigiam para o interior.
A sala de aula era pequena. As pessoas que caminhavam à minha frente detiveram-se logo a seguir à porta para pendurarem os seus casacos numa longa fileira de cabides. Imitei-as. Tratava-se de duas raparigas: uma delas era loura e a sua pele era da cor de porcelana e a outra caracterizava-se igualmente por uma tez pálida, tendo cabelos castanhos-claros. Pelo menos, a minha pele não sobressairá aqui.
Levei o pequeno pedaço de papel ao professor, um homem alto, no qual a calvície começava a alastrar-se, cujo nome se encontrava numa placa sobre a secretária, identificando- o como sendo o Professor Mason. Fitou-me com um ar espantado ao ver o meu nome — o que não foi uma reacção animadora — e, como é evidente, eu fiquei enrubescida como um tomate. No entanto, pelo menos, ele mandou-me sentar numa carteira vaga ao fundo da sala sem me apresentar à turma. Era mais difícil para os meus colegas de turma olharem-me fixamente estando eu sentada ao fundo da sala, mas, de alguma forma, conseguiam fazê-lo. Mantive o olhar baixo, fixado na lista de leituras que o professor me dera. Esta era relativamente elementar: Brontë, Shakespeare, Chaucer, Faulkner. Este facto era reconfortante… e entediante. Perguntei-me se a minha mãe me enviaria a minha pasta que continha redacções antigas ou se consideraria que o facto de eu recorrer às mesmas equivalia a copiar. Enquanto o professor falava monotonamente, revivi, na minha cabeça, diversas discussões que se haviam desenrolado entre nós.
Quando a campainha tocou, emitindo um som que lembrava um zumbido nasalado, um rapaz esgalgado com problemas cutâneos e cabelo que se assemelhava a um derrame de petróleo inclinou-se para o corredor para falar comigo.
— És a Isabella Swan, não és? — parecia ser o género de rapaz demasiadamente prestável que pertence ao clube de xadrez.
— Bella — corrigi. Todos os que estavam sentados num raio de três lugares se viraram para olhar para mim.
— Onde é a tua próxima aula? — perguntou ele.
Tive de confirmar tal informação na minha mala.
— Hmm, Administração Pública, com o Jefferson, no edifício seis.
Não havia para onde dirigir o olhar sem deparar com olhos curiosos.
— Eu vou em direcção ao edifício quatro, podia indicar-te o caminho… — É, sem dúvida, excessivamente prestável. — Chamo-me Eric — acrescentou.
Sorri com uma certa hesitação.
— Obrigada.
Pegámos nos nossos casacos e dirigimo-nos para o exterior, onde a chuva caía agora mais intensamente. Poderia jurar que, atrás de nós, caminhavam várias pessoas a uma distância suficiente para escutar a conversa. Esperava não estar a ficar paranóica.
— Então, isto é muito diferente de Phoenix, não é? — perguntou ele.
— Muito.
— Lá, não chove muito, pois não?
— Três ou quatro vezes por ano.
— Ena, como será o clima lá? — interrogou-se.
— Soalheiro — informei-o.
— Não pareces estar muito bronzeada.
— A minha mãe é parcialmente albina.
Ele examinou o meu rosto de forma apreensiva e eu suspirei. Aparentemente, as nuvens e o sentido de humor não eram conciliáveis. Bastam alguns meses neste ambiente para eu me esquecer de como se fazem observações sarcásticas.
Voltámos a contornar a cantina, encaminhando-nos para os edifícios que se situavam a sul, junto ao ginásio.Eric acompanhou-me mesmo até à porta, apesar de o edifício estar notoriamente assinalado.
— Bem, boa sorte — exclamou quando eu toquei no puxador. — Talvez tenhamos outras aulas em conjunto. — Parecia esperançoso.
Sorri-lhe vagamente e entrei.
Passei o resto da manhã sensivelmente da mesma forma. O meu professor de trigonometria, o professor Varner, o qual, de qualquer modo, eu teria odiado, devido à disciplina que leccionava, foi o único que me fez ficar especada diante da turma e apresentar-me. Gaguejei, ruborizei e tropecei nas minhas próprias botas ao dirigir-me para o meu lugar.
Passadas duas aulas, comecei a reconhecer vários rostos em cada uma das que se seguiram. Havia sempre alguém mais corajoso do que os restantes, apresentando-se e fazendo-me perguntas a respeito do que achava de Forks. Tentava ser diplomática, mas, na maior parte das vezes, limitava-me a fazer bastantes afirmações que não correspondiam à verdade. Pelo menos, nunca precisei de recorrer ao mapa.
Uma rapariga sentou-se a meu lado nas aulas de Trigonometria e de Espanhol, fazendo-me companhia na caminhada até à cantina para almoçarmos. Era baixinha, sendo a sua estatura bastante inferior aos meus 1,62m de altura, mas os seus cabelos escuros rebeldemente encaracolados compensavam grande parte da nossa diferença de alturas. Não conseguia recordar-me do seu nome e, por conseguinte, sorria e acenava com a cabeça enquanto ela tagarelava a respeito dos professores e das aulas. Não me esforçava por seguir o seu raciocínio.
Sentámo-nos na extremidade de uma mesa ocupada por vários amigos seus, que ela me apresentou. Esqueci os nomes de todos eles assim que os proferiu. Pareciam impressionados com a valentia dela ao falar comigo. O rapaz que conheci na aula de Inglês, Eric, acenou-me do lado oposto da sala.
Foi ali, enquanto estava sentada no refeitório, tentando fazer conversa com sete desconhecidos curiosos, que os vi pela primeira vez.
Estavam sentados ao canto da cantina, tão afastados do local onde eu me encontrava quanto possível na longa sala. Eram cinco. Não conversavam e não comiam, apesar de cada um deles ter um tabuleiro com comida intacta diante de si. Não me fitavam imbecilmente, ao contrário da maioria dos restantes alunos, sendo, portanto, seguro olhá-los fixamente, sem receio de deparar com um par de olhos excessivamente interessado. Não foi, todavia, nenhum destes aspectos que chamou e prendeu a minha atenção.
A sua aparência não se assemelhava em nada. Dos três rapazes, um era grande — musculado como um autêntico halterofilista, com cabelo escuro encaracolado. Outro era mais alto, mais esguio, mas, ainda assim, musculoso, com cabelo louro, da cor do mel. O último era esgalgado, menos corpulento, com cabelo cor de bronze desalinhado. Tinha um aspecto mais pueril do que os restantes, que aparentavam ter idade para frequentar a faculdade ou mesmo ser professores em vez de alunos.
As raparigas constituíam perfeitos opostos. A mais alta era escultural. Tinha uma bela silhueta, do género daquelas que figuram na capa da edição dedicada a fatos-de-banho da revista Sports Illustrated, do género daquelas que fazem aumentar a auto-estima de todas as raparigas em seu redor simplesmente por se encontrarem na mesma sala. Os seus cabelos eram dourados, ondulando suavemente até ao meio das suas costas. A rapariga baixa parecia um duende, extremamente magra, com traços delicados. Os seus cabelos eram tingidos de um negro acentuado, curtos e apontavam em todas as direcções.
Apesar de tudo, todos eram precisamente idênticos. Todos eles eram pálidos como giz, os mais pálidos de todos os estudantes que viviam naquela terra sem sol. Mais pálidos do que eu, a albina. Todos se caracterizavam por olhos extremamente escuros, apesar de haver uma grande variedade de tonalidades de cabelo. Tinham também sombras escuras sob os seus olhos — sombras arroxeadas, semelhantes a hematomas, como se todos tivessem passado uma noite sem dormir ou estivessem na fase final de recuperação de um nariz partido, ainda que os seus narizes, todos os seus traços fisionómicos, fossem rectos, perfeitos, angulares.
Não era, contudo, por nenhum destes motivos que eu não conseguia afastar o olhar.
Olhava-os fixamente devido ao facto de os seus rostos, tão diferentes, mas tão similares, serem todos avassaladora e desumanamente belos. Eram rostos que nunca se esperava ver, a não ser, talvez, nas páginas aerografadas de uma revista de moda ou pintados por um velho mestre como correspondendo à face de um anjo. Era difícil determinar quem era o mais belo — talvez a rapariga loura ou o rapaz de cabelo cor de bronze.
Todos eles desviavam o olhar; desviavam-no uns do outros, dos restantes alunos, de tudo em particular, tanto quanto me foi possível verificar. Enquanto os observava, a rapariga pequena levantou o seu tabuleiro — refrigerante por abrir, maçã por trincar — e afastou-se com rápidos e graciosos passos largos que seriam bem empregues numa pista de corrida. Observei-a, espantada com o seu delicado andar de bailarina, até que ela despejou o tabuleiro e deslizou pela porta das traseiras, de forma mais ágil do que eu pensara ser possível. Os meus olhos precipitaram-se novamente sobre os outros, que permaneciam inalteradamente sentados.
— Quem são eles? — perguntei à rapariga que conhecera na aula de Espanhol, cujo nome já esquecera.
Quando ela erguia o olhar para ver a quem eu me referia — embora, provavelmente, já soubesse, devido ao meu tom de voz — ele olhou subitamente para ela, o mais magro, o mais pueril, talvez o mais novo. Olhou para a rapariga que se encontrava a meu lado, durante apenas uma fracção de segundo e, em seguida, os seus olhos escuros cruzaram-se com os meus.
Ele desviou o olhar rapidamente, mais rapidamente do que eu poderia fazê-lo, ainda que, num assomo de embaraço, eu tenha baixado os olhos imediatamente. Naquele breve relancear de olhar, o seu rosto não revelou qualquer interesse — era como se ela tivesse entoado o seu nome e ele tivesse olhado numa reacção involuntária, tendo já decidido não responder.
A rapariga junto a mim soltou risinhos de embaraço, olhando, tal como eu, para a mesa.
— São o Edward e o Emmett Cullen, a Rosalie e o Jasper Hale. A que se foi embora era a Alice Cullen; vivem todos com o Dr. Cullen e a sua esposa — proferiu, em voz segredada.
Relanceei o olhar de lado na direcção do belo rapaz, que, agora, olhava para o seu tabuleiro, desfazendo um pão em pedaços com os longos e pálidos dedos. A sua boca mexia-se muito rapidamente, mal abrindo os seus perfeitos lábios. Os restantes três continuavam a desviar o olhar e, mesmo assim, tive a sensação de que ele lhes dirigia palavras discretas.
Que nomes estranhos, impopulares, pensei eu. Nomes do género daqueles com que os avós eram baptizados. Talvez, porém, tal estivesse em voga naquela localidade — nomes de cidade pequena? Lembrei-me, por fim, de que a rapariga junto a mim se chamava Jessica, um nome perfeitamente comum. Na cidade de onde eu provinha, havia duas raparigas chamadas «Jessica» na minha aula de História.
— São… muito bem-parecidos — debati-me com o conspícuo eufemismo.
— Pois são! — concordou Jessica com outro risinho. — Todos estão, porém, comprometidos uns com os outros — o Emmett com a Rosalie e o Jasper com a Alice, quero eu dizer. Além disso, vivem juntos. — A sua voz continha todo o choque e condenação da pequena cidade, pensei eu, de modo crítico. No entanto, se quisesse ser sincera, tinha de reconhecer que, mesmo em Phoenix, tal facto seria motivo de mexericos.
— Quais são os Cullen? — perguntei. — Não parecem ser aparentados…
— Oh, e não são. O Dr. Cullen é extremamente jovem; encontra-se na casa dos vinte ou dos trinta. São todos adoptados. Os Hale é que são irmãos, mais precisamente, gémeos — os louros — e foram colocados numa família de acolhimento.
— Parecem já ter demasiada idade para terem sido colocados numa família de acolhimento.
— Agora têm. Tanto o Jasper como a Rosalie têm dezoito anos, mas estão ao cuidado da Sra. Cullen desde que tinham oito. Ela é tia deles ou algo semelhante.
— É bastante simpático da parte deles, o facto de cuidarem de todos aqueles miúdos dessa forma, sendo eles tão jovens e tudo isso.
— Suponho que seja — reconheceu Jessica com relutância, tendo eu ficado com a impressão de que, por algum motivo, ela não gostava do médico nem da sua esposa. Com os olhares que lançava aos filhos adoptados de ambos, poderia presumir que o motivo seria inveja. — Julgo,porém, que a Sra. Cullen não pode ter filhos — acrescentou, como se tal diminuísse a bondade do casal.
Durante toda esta conversa, os meus olhos vaguearam uma e outra vez na direcção da mesa à qual a estranha família se encontrava sentada. Continuavam a fitar as paredes e a não comer.
— Viveram em Forks desde sempre? — perguntei. Decerto teria reparado neles num dos verões que ali passei.
— Não — exclamou num tom de voz que insinuava que tal facto deveria ser óbvio, mesmo para uma recém-chegada como eu. — Mudaram-se para cá há apenas dois anos, vindos de algures no Alasca.
Fui invadida por um sentimento de piedade e alívio. Senti piedade, pois, sendo tão belos, eram forasteiros, claramente não aceites. Por outro lado, senti alívio por não ser a única recém-chegada naquele local, nem, de forma manifesta, a mais interessante segundo qualquer critério.
Enquanto eu os examinava, o mais novo, um dos Cullen, ergueu o olhar e este cruzou-se com o meu, desta vez com uma curiosidade evidente patente na expressão do seu rosto. Ao desviar rapidamente o olhar, pareceu-me que o dele transmitia uma certa impressão de expectativas não correspondidas.
— Qual deles é o rapaz com cabelo castanho arruivado? — perguntei. Espreitei-o pelo canto do olho e ele continuava a olhar-me fixamente, mas não de um modo espantado como os restantes alunos haviam feito nesse dia — tinha uma expressão de ligeira frustração estampada no rosto. Voltei a baixar o olhar.
— É o Edward. É lindo, como é evidente, mas não percas o teu tempo. Ele não sai com raparigas. Pelos vistos, nenhuma das raparigas daqui é suficientemente atraente para ele. — Ela torceu o nariz, um caso explícito de despeito. Perguntei-me quando é que ele a teria rejeitado.
Mordi o lábio para disfarçar o meu sorriso. Seguidamente, voltei a olhá-lo de relance. O seu rosto estava voltado na direcção oposta, mas pareceu-me que a sua face estava elevada, como se também ele estivesse a sorrir.
Volvidos mais alguns minutos, Edward não voltou a olhar-me.
Permaneci sentada à mesa com Jessica e os seus amigos durante mais tempo do que teria feito se estivesse sozinha. Estava ansiosa por não chegar atrasada às aulas no meu primeiro dia. Uma das minhas novas conhecidas, que me lembrava recorrentemente de que o seu nome era Angela, tinha Biologia II comigo na hora seguinte. Caminhámos juntas para a aula, em silêncio. Também ela era tímida.
Quando entrámos na sala de aula, Angela foi sentar-se a uma bancada de laboratório com tampo preto exactamente idêntica àquelas a que eu estava habituada. Já tinha uma colega de carteira. Na verdade, todas as bancadas estavam completamente ocupadas, exceptuando uma. Ao lado do corredor central, reconheci Edward Cullen devido ao seu cabelo invulgar, estando sentado junto ao único lugar vago.
Ao percorrer o corredor para me apresentar ao professor e lhe pedir que assinasse o pequeno pedaço de papel que me fora dado, observava-o sub-repticiamente. Então, no preciso momento em que eu passava, ele adoptou subitamente uma postura rígida no seu lugar. Voltou a fitar-me, fixando os seus olhos nos meus com a mais estranha das expressões estampada no rosto — revelava hostilidade, fúria. Apressei-me a desviar o olhar, chocada, enrubescendo novamente. Tropecei num livro na passagem e tive de procurar o equilíbrio na borda de uma bancada. A rapariga que estava ali sentada soltou alguns risinhos.
Reparara no facto de que os olhos dele eram negros — negros como o carvão.
O professor Banner assinou-me o papel e entregou-me um livro sem proceder a quaisquer apresentações disparatadas. Percebi que nos daríamos bem. Como é evidente, não teve alternativa senão mandar-me sentar no lugar vago no meio da sala. Mantive os olhos baixos enquanto caminhava para ir sentar-me a seu lado, desconcertada com o olhar adverso que ele me lançara.
Não levantei o olhar ao pousar o livro na carteira e sentar-me, mas, pelo canto do olho, vi a sua postura alterar-se. Inclinara-se, distanciando-se de mim, estando sentado mesmo à beirinha da cadeira e desviando o rosto como se tivesse sentido um odor desagradável. Discretamente, cheirei o meu cabelo. Exalava uma fragrância a morango, o aroma do meu champô preferido. Parecia um odor bastante inócuo. Deixei os meus cabelos caírem sobre o ombro direito, criando uma cortina negra entre nós, e tentei prestar atençãoao professor.
Infelizmente, a lição tinha como tema a anatomia celular, algo que eu já estudara. De qualquer forma, tomei notas cuidadosamente, mantendo sempre o olhar baixo.
Não conseguia evitar espreitar, de vez em quando, através do biombo do meu cabelo, o estranho rapaz que se encontrava a meu lado. Durante toda a aula, nunca relaxou a sua posição hirta na borda da cadeira, estando sentado tão longe de mim quanto possível. Conseguia ver que a sua mão, pousada na sua perna direita, estava fechada, formando um punho cerrado, com os tendões a sobressaírem sob a sua pele pálida. Também este nunca relaxou. Tinha as longas mangas da sua camisa branca arregaçadas até aos cotovelos e o seu antebraço era surpreendentemente firme e musculoso sob a sua pele clara. Não era, de modo nenhum, tão franzino como aparentara quando estava junto do seu corpulento irmão.
A aula parecia arrastar-se durante mais tempo do que as restantes. Dever-se-ia ao facto de o dia estar finalmente prestes a terminar ou de eu esperar que o seu punho tenso se distendesse? Tal nunca chegou a acontecer; permaneceu de tal modo estático que parecia não respirar. O que se passava com ele? Seria este o seu comportamento normal? Questionei a minha interpretação a respeito do azedume de Jessica ao almoço. Talvez não estivesse tão despeitada como eu pensara.
Aquela atitude não podia, de forma alguma, estar relacionado comigo. Não me conhecia de lado nenhum.
Espreitei-o uma vez mais e arrependi-me de o ter feito. Lançava-me novamente um olhar irritado, estando os seus olhos negros repletos de repulsa. Estremeci ao afastar-me dele, encolhendo-me contra a minha cadeira, e a expressão «se o olhar matasse» atravessou-me o espírito.
Nesse momento, a campainha tocou de forma sonora, sobressaltando-me, e Edward Cullen moveu-se do seu lugar. Fluidamente, ergueu-se — era muito mais alto do que eu pensara — de costas voltadas para mim e transpôs a porta antes que mais alguém tivesse saído do seu lugar.
Permaneci imóvel no meu lugar, lançando o olhar vazio na direcção em que ele seguira. Ele era tão mau. Não era justo. Comecei a recolher os meus pertences lentamente, tentando bloquear a raiva que me invadia, com receio de que os meus olhos se enchessem de lágrimas. Por algum motivo, havia uma ligação estabelecida entre o meu temperamento e os meus canais lacrimais. Costumava chorar quando estava zangada, o que era uma tendência humilhante.
— Não és a Isabella Swan? — perguntou uma voz masculina.
Levantei o olhar para deparar com um rapaz giro com cara de bebé, cujo cabelo louro claro estava cuidadosamente moldado com gel, alinhadamente espetado, que me sorria de um modo amistoso. Era evidente que ele não pensava que eu exalava um odor desagradável.
— Sou a Bella — corrigi-o, esboçando um sorriso.
— Eu chamo-me Mike.
— Olá, Mike.
— Precisas de ajuda para encontrar a sala onde vai ter lugar a tua próxima aula?
— Na verdade, vou para o ginásio. Julgo que consigo encontrá-lo.
— Essa é também a minha próxima aula. — Pareceu radiante, ainda que tal facto não fosse uma grande coincidência numa escola tão pequena.
Caminhámos juntos para a aula; ele era um tagarela — encarregou-se de grande parte da conversa, o que facilitou a minha tarefa. Vivera na Califórnia até aos dez anos e, por conseguinte, queria saber o que eu pensava do sol. Veio a verificar-se que ele também fazia parte da minha turma de Inglês. Foi a pessoa mais simpática que conheci neste dia.
No entanto, quando estávamos a entrar no ginásio, ele perguntou:
— Então, apunhalaste o Edward Cullen com um lápis ou quê? Nunca o vi agir daquela forma.
Eu retraí-me. Não fora, então, a única a reparar e, pelos vistos, aquele não era o comportamento normal de Edward Cullen. Decidi fazer-me despercebida.
— Referes-te ao rapaz junto ao lado do qual me sentei na aula de Biologia? — perguntei com naturalidade.
— Sim — respondeu ele. — Parecia estar em sofrimento ou algo do género.
— Não sei — repliquei. — Nunca falei com ele.
— É um tipo estranho. — Mike demorava-se na minha companhia em vez de se dirigir ao vestiário. — Se eu tivesse tido a sorte de me sentar a teu lado, teria falado contigo.
Eu sorri-lhe antes de passar pela porta do balneário feminino. Ele era amável e um manifesto admirador meu, mas tal não era suficiente para atenuar a minha irritação.
O professor de ginástica, o treinador Clapp, arranjou-me um equipamento, mas não me obrigou a colocá-lo para participar na aula deste dia. Na minha terra, eram necessários apenas dois anos de Educação Física. Aqui, a disciplina de E. F. era obrigatória durante os quatro anos. Forks era literalmente o meu inferno pessoal na Terra.
Assisti a quatro partidas de voleibol que decorriam simultaneamente. Ao lembrar-me das lesões que sofrera — e infligira — enquanto jogava voleibol, senti-me ligeiramente enjoada.
O derradeiro toque da campainha finalmente soou. Encaminhei-me vagarosamente para o Conselho Executivo para devolver os documentos que me haviam sido entregues. A chuva afastara-se, mas o vento estava forte e mais frio. Coloquei os meus braços em torno do meu corpo.
Quando entrei no gabinete aconchegante, quase dei meia-volta e saí pelo mesmo caminho.
Edward Cullen estava de pé, junto à secretária, à minha frente. Voltei a reconhecer aquele desgrenhado cabelo cor de bronze. Não parecia aperceber-se do som da minha entrada. Fiquei de pé, encostada à parede do fundo, esperando que a recepcionista pudesse atender-me.
Ele discutia com ela num tom de voz grave e sedutor. Depressa compreendi o cerne da questão. Ele estava a tentar mudar a aula de Biologia ao sexto tempo para outra hora — qualquer outra hora.
Não conseguia simplesmente acreditar que era eu o móbil de tal atitude. Devia tratar-se de algo mais, de algo que acontecera antes de eu entrar na sala de aula na qual decorria a aula de Biologia. A expressão estampada no seu rosto deveria ter sido motivada por uma exasperação completamente distinta. Não era possível que aquele desconhecido tivesse sentido uma antipatia tão intensa e repentina por mim.
A porta abriu-se novamente e o vento frio irrompeu subitamente pela sala, soprando os documentos que se encontravam sobre a secretária e fazendo com que os meus cabelos redemoinhassem à volta do meu rosto. A rapariga que entrou limitou-se a dirigir-se à secretária, colocar um bilhete no cesto de arame e sair, mas as costas de Edward Cullen ficaram rígidas e ele virou-se lentamente para me fitar — o seu rosto era absurdamente formoso — com um olhar penetrante e repleto de ódio. Por um instante, senti um frémito de autêntico medo, que fez com que os pêlos dos meus braços se eriçassem. O olhar durou apenas um segundo, mas enregelou-me mais do que o vento gélido. Virou-se novamente para a recepcionista.
— Então, esqueça — disse ele apressadamente num tom de voz que parecia aveludado. — Vejo que é impossível. Muito obrigado pela sua ajuda. — Seguidamente, deu meia-volta sem voltar a pousar os olhos em mim e desapareceu ao sair pela porta.
Aproximei-me brandamente da secretária, com o rosto inusitadamente branco em vez de vermelho, e entreguei o pedaço de papel assinado à recepcionista.
— Como correu o teu primeiro dia, querida? — perguntou maternalmente.
— Optimamente — menti, com a voz débil. Não pareceu ficar convencida.
Quando entrei na pick-up, esta era praticamente a última viatura que se encontrava no parque de estacionamento. Parecia um refúgio, sendo já o que eu tinha de mais semelhante a um lar naquele buraco verde e húmido. Permaneci sentada no seu interior durante alguns momentos, lançando apenas o olhar vazio pelo pára-brisas, mas depressa tive frio suficiente para necessitar do aquecimento, pelo que liguei a ignição e o motor roncou ao voltar à vida. Dirigi-me novamente para a casa de Charlie, tentando conter as lágrimas ao longo de todo o percurso.
Excerto:
« A paisagem era, evidentemente, bela; eu não podia negá-lo. Tudo era verde: as árvores, os troncos revestidos de musgo, os próprios ramos em forma de abóbada, o solo coberto de fetos. O próprio ar, filtrado pelas folhas, assumia uma tonalidade verde. Era demasiado verde - um planeta extraterrestre. »
Excerto:
« - Está na hora do crepúsculo - murmurou Edward, olhando o horizonte a Ocidente, obscurecido como estava devido às nuvens.
A sua voz soava pensativa, como se o seu espírito estivesse longe dali. Fitei-o enquanto ele lançava o olhar pelo pára-brisas sem nada ver.
Estava ainda a fitá-lo quando os seus olhos, de repente, voltaram a fixar-se nos meus.
- É a altura mais segura do dia para nós - disse ele, respondendo à pergunta tacitamente formulada nos meus olhos. - A altura mais tranquila, mas, de certo modo, também a mais triste.. o fim do dia, o regresso da noite. A escuridão é tão previsível, não achas? - sorriu melancolicamente.
- Eu gosto da noite. Sem o anoitecer, nunca veríamos as estrelas.»
Excerto:
« - E, assim, o leão se apaixonou pelo cordeiro - murmurou ele.
Desviei o olhar, escondendo os olhos ao emocionar-me com aquela palavra.
- Que cordeiro parvo! - suspirei.
- Que leão doentio e masoquista! »
Excerto:
«- Escuta - disse eu. - Eu amo-te mais do que tudo o resto no mundo junto. Isso não basta?
- Sim, basta - respondeu, sorrindo. - Basta para toda a eternidade.»